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KURO – a cor preta


Certa feita, escreveram-me afirmando ter um akita preto e que alguém lhe disse que não era puro porque não existe tal cor no padrão da raça. Ela telefonou para quem lhe vendeu o filhote e ele afirmou que os pais vinham de linhagens insuspeitas, reiterando que seu filhote era um akita puro de raça. Propôs-se, até, a pagar o exame de DNA se ela quisesse, para tirar qualquer dúvida.

Ela dispensou o exame por não ver motivos para tanto pois o criador é sério, estudioso e muito respeitado. Mais por curiosidade do que por outra coisa, perguntou-me se é possível um akita ser preto e se haveria possibilidade de conciliar duas posições aparentemente opostas.

Perguntei-lhe se queria levar seu exemplar em exposições ou utiliza-lo na criação. Como a resposta foi negativa, disse-lhe que não se preocupasse pois a cor dele é um sésamo preto com reflexos levemente acobreados.

Ela ficou tranquila – mas a resposta não me satisfez. Fiquei intrigado porque, pelo padrão da JKC/FCI, o sésamo é um tipo de pelo com as cores invertidas, ou seja, a raiz vermelha, o meio branco e a ponta preta e não um pelo de uma única cor preta. Sem maiores indagações, anotei para fazer uma pesquisa, mas a matéria acabou simplesmente arquivada.

Há poucos meses, conversando com um amigo, referi-me a akitas sésamo-pretos e ele, gozador, disse-me que nunca tinha visto ou ouvido falar em akitas com tal cor e indagou onde tinha lido isto, com um ar de que pensava que eu estava inventando ou, pior, divagando sem qualquer fundamento...

Aí, a coisa ficou preta (sem trocadilhos, por favor) – e não foi por causa do sorriso debochado, mas porque é um assunto que havia me prometido pesquisar e não o tinha feito e, por isso, tinha sido pego de calça curta. Pois, então – óbvio – fui atrás de respostas – e não encontrei nada que plenamente pudesse satisfazer minha curiosidade.

A questão ficou me rondando a cabeça até que outro amigo, que se propôs a traduzir o padrão akita da AKIHO, encontrou um fato que lhe causou espanto – não conseguia alcançar a plena compreensão de um kanji até que sua filha lhe falou a palavra “kuro” e ele ficou atônito! A primeira coisa que lhe veio à mente foi um akita da cor de um labrador preto!!! Depois, um tigrado praticamente preto, mas isso também não o satisfez plenamente.

Ao ler a informação, procurei ver novamente o akita que havia despertado minha curiosidade. A vivo e a cores, não mais um simples filhote, o exame da pelagem me revelou que o pelo é preto com tons acobreados, não sésamo ou tigrado, como normalmente vemos - nem por isso, deixa de ser um akita com todas as características requeridas pelo padrão da raça divulgado pela FCI, inclusive o uragiro – é um belo akita, digno de todos os elogios, mas preto.

Intrigado, voltei aos estudos. Eis que se não quando, encontrei uma referência à qual não tinha anteriormente dado o devido valor – transcrevo: “The black sesame, red sesame and sesame colors almost disappeared in Akitas, while white and brindle remained” (livro “AKITA”, 1968, Japan Kennel Club, fls. 80). Traduzo, livremente: “o sésamo preto, o sésamo vermelho e as cores sésamo quase desapareceram nos akitas, enquanto que a (cor) branca e a tigrada permaneceram”. Até onde entendi, em outras palavras, para o Japan Kennel Club o sésamo-preto existe mas são raros (quase desapareceram) razão pela qual a cor não está incluída em seu padrão.

Consequentemente, tais divagações levam à satisfação daquela curiosidade que foi inicialmente expressa – é possível conciliar posições aparentemente divergentes? Respondo: Sim, não hei de negar a realidade vista por meus olhos - mas não, não existe referência à cor preta no padrão da raça divulgado pela entidade à qual me filio. Contudo, existe no padrão de outra entidade cartorial. Ou seja, simplificando – akita de cor preta - existe? Sim, não, muito pelo contrário.

Durma com um barulho desses.

Aquele abraço pra quem fica e quem quiser que conte outra.

Sollero, Agosto/2018

Nota – agradeço à Megumi as fotos que me cedeu. Não admita que alguém lhe fale que o Satsuki está fora do padrão. Não discuta. Pergunte-lhe, candidamente – Qual padrão? O da AKIHO? O da NIPPO? O da JKC? O da KIOKAI.... Quando ele se embaralhar tentando explicar o aparentemente inexplicável, dê um sorriso maroto, vire as costas e vá embora.
Aquele abraço do Velho akiteiro